quarta-feira, 3 de abril de 2013
CADARÇOS
estávamos no parque, numa segunda fria. não tinha mais ninguém lá, só aquelas árvores com folhas amarelas. só nós dois. eu te abraçava, mas não com carinho. quer dizer, não só com carinho. se alguém olhasse com atenção veria que seus pés estavam fora do chão. na verdade eu estava segurando seu corpo. puxando-a pra baixo. mas não adiantava, seu corpo cada vez mais se forçava a subir, escorrendo e meus braços fracos já não aguentavam mais. te abraçando já pela cintura comecei a te imaginar indo embora pra sempre, as pernas passando pelos meus braços, as canelas finas, o tênis vermelho. não sei porque pensei nos cadarços roçando nos meus dedos. acho que é porque me lembrei de como você gostava da palavra cadarços. CADARÇOS. palavra engraçada mesmo. acho que é porque o erre ali no meio te faz fazer arr, tipo um leão, ou porque tem um cedilha ao invés de um s, como em arsênio ou varsóvia, seilá. enquanto fiquei pensando nisso seu corpo foi escorregando e só conseguia abraçar seus pés, na altura do meu rosto. meu nariz amassado e a boca torta. e tive uma ideia, te amarrar pelo cadarço. torto e desengonçado, dobrei a perna, tirei meu tênis, dei um nó em nossos cadarços e calcei o meu tênis com a mão. fomos, voando por cima do parque, pra sempre. separados, mas juntos. comigo a seus pés.
domingo, 31 de março de 2013
mãos pesadas
d e s a n u vi a r.
vamos afastar os cabelos delas pra trás das orelhas
e os medos pra fora da porta.
escrevam teus nomes e os telefones nesses papéis de pão.
esse café da manhã ainda ontem é que nos une.
vamos pra praia?
afasta as nuvens com as mãos pesadas,
que o sol vai deixar marcado
mesmo que os papéis de pão se percam,
mesmo que a gente durma,
mesmo que o bronzeado passe,
ficaremos marcados.
com recurso de Lucas Millecco
com recurso de Lucas Millecco
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013
Sussurros
Altêe o som das batidas de teu coração noutro lado da rede, por favor. Eu quero escutar o sangue correndo nos vasos das plantas da varanda. Pra te salvar, te rego com um beijo no pé enquanto abraço tuas pernas compridas. As tenho, mais duas, pra ancorar nossa casa-barco-rede no mesmo lugar; porque tuas pernas não são feitas pra remar e quem tem que se mexer é o vento. Te vejo dormindo e sinto que essa brisa vem de tuas narinas, me despenteia e logo percebo que este é caminho onde repousam as tormentas, onde compartilhamos da angústia com os peixes. Aqui pelo canto, lamento o que não dito tornou-se choro, argumento, lástima, ou só monóxido. Os grãos de areia que restam, não comprometem o toque, e menos ainda o espanto da alma. Neste barquinho, o tempo me poliu com a incerteza dos amores tropicais, e salvei-me porque como todo espirito liberto, amei profundamente tudo o que podia. Altêe o som das batidas de teu coração noutro lado da rede, por favor. Eu quero escutar o que o vento tentou me dizer sussurrando. - Eu quero enxergar onde teus braços resolveram apontar enquanto suavemente pousavam em mim. Quero sentir de novo aquilo que teu corpo tentou me avisar com o calor, quero-te agora pra dormir tranquilo, e num futuro próximo para navegar por inteiro.
Mulher, repete o carinho que nos fez debochar das diferenças: Fecha teu olho e me beija com a alma agora, pois logo as âncoras se desfazem e a maré vem cobrar o que é dela. Seremos vento então, história, piada ou só monóxido outra vez. Aqui o tempo não perdoa nada, e o que nos restará é ser a lembrança do sangue correndo nos vasos das plantas de outros amores. Sussurros.
AUTORIA CONJUNTA DE GABRIEL TURNER E RAFAEL SPÍNOLA
Mulher, repete o carinho que nos fez debochar das diferenças: Fecha teu olho e me beija com a alma agora, pois logo as âncoras se desfazem e a maré vem cobrar o que é dela. Seremos vento então, história, piada ou só monóxido outra vez. Aqui o tempo não perdoa nada, e o que nos restará é ser a lembrança do sangue correndo nos vasos das plantas de outros amores. Sussurros.
AUTORIA CONJUNTA DE GABRIEL TURNER E RAFAEL SPÍNOLA
quarta-feira, 9 de janeiro de 2013
sexta-feira, 21 de dezembro de 2012
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Meu bem amado,
Podem tentar rabiscar entre os seus bigodes um esboço de sorriso, que entre os dentes ainda vou me mostrar. Podem rabiscar um grande sorriso, que voceˆ vai ver que o sorriso e' meu. Mesmo sorrindo voceˆ me carrga carrega.
Na˜o escrevo para irritar, peço que mantenha sua tanta calma. Essa carta na˜o e' pessimista. Voceˆ sabe que um dia, nos vinte minutos entre o bobo' de camara˜o e a sesta, eu me ausentarei. Porque e' como voceˆ ja' escutou: A alegria gasta o que eu entesourei.
Carinho da sempre sua,
Tristeza.
segunda-feira, 15 de outubro de 2012
As minhas falas de Joaquim
Jorge Luis Borges conta em seu livro Ficções como o escritor Pierre Menard reescreveu o “Dom Quixote” de Cervantes. Menard não adaptou a história para sua época, também não escreveu de sua própria maneira; ele escreveu novamente o livro sem mudar uma palavra, sem acrescentar uma vírgula. Teve a necessidade de escrever a obra, a partir de suas próprias pulsões.
Depois de muito, da mesma maneira que Pierre Menard escreveu o “Dom Quixote”, consegui reescrever um trecho do poema “Os tres mal-amados” de João Cabral de Melo Neto:
O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.
O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.
O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. COmeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-x. Comeu meus teste mentais, meus exames de urina.
O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.
Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.
O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.
O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.
O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.
O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelha, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.
O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.
O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.
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