quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015
a contagem dos anos dos cachorros pelos nossos anos
uma frase do miguel gomes assovia. sob o manto polido da amabilidade, escondia um desespero selvagem. é difícil saber quando começa um sorriso e quando termina, a diferença é tão pequena e frágil que não pode ter cor. a quarta feira de cinzas não sabe o quanto está cansada, de ressaca ou triste. o frio caminha por debaixo da terra, de coração apertado e pronto pra subir. sei que esse texto é confuso, mas o que eu quero dizer é que eu te amo.
segunda-feira, 8 de dezembro de 2014
voar pula gerações
esse moleque tá andando muito perto de mim igual agora na festa aquele mala que ficava desenhando nas pessoas empurro o moleque isso sempre acontece nos meus sonhos alguém muito to sonhando to sonhando to sonhando calma não perde se concentra dá passos maiores isso sai um pouco do chão o gabriel começa a me contar de um filme que ele quer fazer em uma faculdade em um hospital só com alunos interpretando os médicos só um deles que já fez enfermagem a gabi queria fazer um filme de médicos eu conheço aquela rua, aqueles paralelepípedos parece o filme pude ver un puma sempre que eu sonho eu to nessa cidade eu to sonhando concentra deixa o gabriel falando mas anda tem que andar vamos voar é o que eu mais gosto voar é foda mas é difícil tem que concentrar vamos tentar tem que tomar distância daqui não vai, vamos subir tem que tomar mais distância vou pular praquele prédio daqui dá ei to sem espaço pula pula ai quase eu sempre fico pendurado e com força pode soltar mas acho que não funciona pra voar tem que ter impulso e se jogar não adianta só se largar do alto tá vou pra ali lá é a faculdade que o gabriel tava falando dos médicos mó vistão irado olha a julia ali ela tá pelada me dá um beijo ela tá do meu lado eu acho que vou acordar vamos voar de cima da faculdade dá sobe por fora pelo cano
segunda-feira, 1 de dezembro de 2014
pombos no buraco do ar-condicionado
sua cabeça triplicou de tamanho. não gosta de beber à tarde, mas a presença do amigo carioca pedia um brinde no almoço. chegou em casa suando do sol forte. sentia latejar a cabeça quente e ouvia o barulho dos pombos cinzas que fizeram ninho no buraco do ar condicionado. foi até o banheiro, encheu a toalha de água e a enrolou na cabeça, como um turbante isolante do mundo. deitou. a cabeça girou molhada, desatarraxando o pescoço aos poucos. fez força pra dormir, mas lembrou. o bilhete colado na porta pedindo pra avisar a mãe em cachoeirinha, a porta daquele vidro que distorce as imagens entreaberta e os braços em Z tortos no chão. fez o que podia ser feito, repetia, o que podia ser feito, feito, fei. os pombos faziam o barulho que os pombos fazem, mas agora os sons se misturavam, abafados, um rrrrr entrando no outro, fazendo uma cama. da janela vinha um vento lateral e a cabeça diminuía a cada respiro. os pombos se calaram e o mundo é uma bolha de ar, um carro passou e todo mundo vai morrer, devagar, existe uma quantidade enorme de pessoas bonitas no mundo, calma, pequeno, sereno, respira, dormiu e os pombos levantaram vôo.
ógleis
o tempo engorda no espaço de um abraço apertado e mesmo sabendo que todo mundo vai morrer, sei que batida muito alta é de coração vivendo. os meus óculos são pra longe; pra perto não preciso deles pra enxergar teus dentes sorrindo sem tempo e dizendo que toda volta é inteira.
pra julia
segunda-feira, 6 de outubro de 2014
desmontar uma bomba nuclear
um levava o outro na garupa quando decidiram descer a ladeira da bola. no cruzamento, bateram no peugeot, que foi embora. os gêmeos conseguiram chegar na rua de casa, muito machucados e ensanguentados. a roda da bicicleta completamente torta ditava o caminho sinuoso dos dois na rua de terra. chegaram em casa e a mãe já apareceu. ela sempre aparecia quando alguma coisa ruim acontecia, parecia saber sempre. ela mandou os dois tirarem a roupa e um saiu correndo de volta pra rua, mancando. o outro ficou. ela mandou de novo ele tirar a roupa e entrar no chuveiro. obedeceu. lá, a mãe apareceu com um chinelo havaianas marrom e começou a bater. bateu sem parar, nos cortes e arranhões, espalhando o sangue no box e respirando forte. ele apanhou quieto, dessa vez não sentia. sentia que doía, mas sabia que não importava. sentiu-se maior que ela pela primeira vez, apesar do um metro e sessenta. irritada com falta de resposta do garoto, bateu mais, até que se cansou e parou.
ela entrou no táxi, ligou o carro e pôs o rádio. do porta-luva, tirou o cd arranhado do U2 e o inseriu. saiu com o carro. ela não sabe fala inglês, mas de tanto ouvir, aprendeu a cantar junto com a música, acompanhando as palavras pelo som.
“I want to trip inside your head
Spend the day there...
To hear the things you haven't said
And see what you might see
I want to hear you when you call
Do you feel anything at all?
I want to see your thoughts take shape
And walk right out
Freedom has a scent
Like the top of a new born baby's head
The songs are in your eyes
I see them when you smile
I've seen enough I'm not giving up
On a miracle drug
Of science and the human heart
There is no limit
There is no failure here sweetheart
Just when you quit...
I am you and you are mine
Love makes nonsense of space
And time... will disappear
Love and logic keep us clear
Reason is on our side, love...
The songs are in your eyes
I see them when you smile
I've had enough of romantic love
I'd give it up, yeah, I'd give it up
For a miracle, a miracle drug, a miracle drug
God I need your help tonight
Beneath the noise
Below the din
I hear your voice
It's whispering
In science and in medicine
"I was a stranger
You took me in"
The songs are in your eyes
I see them when you smile
I've had enough of romantic love
I'd give it up, yeah, I'd give it up
For a miracle, miracle drug
Miracle, miracle drug."
segunda-feira, 1 de setembro de 2014
la ursa
incendiou o fim da festa como se fosse barcelona e o inferninho começou a tremer de fogo. um menino entrou com uma máscara de urso e dançando, alheio à correria e gritaria, chegou perto da menina. o grave apressava o coração, que atrasado, se esforçava pra manter o passo e os dois dançavam movendo todos os músculos, agitados. ela tirou a máscara dele e a vestiu. era grande e parecia pesada, mas não. era leve, como nunca se sentiu. tentou agradecer, mas a voz fica abafada ali dentro. gritou e se sentiu um animal, rugindo. uma ursa, primitiva. olhou o menino por entre os muitos dentes da máscara, pontudos e afiados. la ursa o beijou, pelo papel-machê.
sexta-feira, 15 de agosto de 2014
quase vi um cachorro azul
ext. rua - noite.
ele desapareceu antes da câmera ligar. mas não sumiu, como se evaporasse. sumiu como se tivesse sido engolido pelo chão, entre o cimento e a faixa branca pintada ao lado da calçada. fumaça. preto e azul. o plano enquadra com simetria a porta gradeada e a fachada de um estúdio de revelação 24 horas. no letreiro, as palavras desbotadas e o número de telefone faltando o primeiro 2. da portinha ao lado, com uma luz azul piscante, vindo de dentro, um burburinho grave reverbera. do som grave, uma música. uma guitarra distorcida e triste e um homem canta com a voz grave, engolindo e repetindo as palavras like milk spilt on a stone, hearts and thoughts they fade away. e os pixels se rearranjam, em um grande e lento fade through fantasmagórico até a fixação: o cão, doberman; grande e musculoso, um pelo curto, azul, perto do marinho, e brilhante. os olhos, pretos e também brilhantes, encaram a objetiva. Ele late. corta para
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