segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Conjunta

Somos nó de gente que se amarra pela cabeça. Se amarra porque as cabeças são afins. Esses nós se entrelaçam formando um gigante; chama-se Benjamim. Ele passa os dias sentado em uma grande mesa de madeira e costura, a partir de retalhos de ideias, chapéus. Os calça quando sai na rua, sempre com a mão esquerda

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Teresópolis


Estou em Teresópolis, lugar onde passei minhas férias de criança com a companhia serena de meus avós subo a escada que leva à varanda da casa e já consigo ver o rosto de minha avó na janelinha da porta ela me saúda com um aceno de mão esse retrato eu tirei em minha cabeça todas as vezes que voltava para o Rio no fim das férias e me despedia atrapalhado com as malas dessa vez estou chegando e me aproximo de minha velha chego bem perto e seu rosto não está mais na janela coloco o meu rosto e olho para dentro quando abaixo minha cabeça, a vejo, muito pequena vejo que ela não tinha nem altura para colocar o rosto na janela está curvada, com o cabelo todo branco e um rosto com muitas rugas e nenhum sorriso, está triste olho para dentro da casa e vejo novamente minha vó, ainda menor, deitada em uma cama com o corpo todo enrugado ela tem o cabelo grisalho, mais cinza e seus olhos parecem cansados atrás dela, uma terceira dela, minúscula e amassada, imóvel como uma estátua de pedra, com o cabelo todo cinza, sem brilho e com a boca escancarada, fitando o teto aquelas imagem me incomodam muito e eu saio da varanda, acho que vou embora, mas dou a volta no jardim subo pela outra escada e entro na cozinha vou como uma criança corre em casa até o quarto onde dormia e entro apressado no meio dele, uma corda pendurada no teto e atrás dela, minha avó corro até ela e dou um forte abraço ela está com o seu tamanho normal, batendo no meu queixo seus cabelos negros e bem penteados me afasto minha avó não tinha o cabelo tão negro pergunto “a senhora pintou o cabelo?” me diz que não e vira o rosto, olhando para o fundo do quarto lá estava meu avô, forte e grande ele vai até a minha avó e a abraça me olha e dá um pequeno sorriso com os braços na minha avó, diz “Vamos, Maria” os dois então, começam a subir muito rapidamente a corda até que chegam ao teto e somem corro para os alcançar, mas a corda sobe muito depressa atrás deles e eu não consigo alcançar sinto que nunca mais os verei tristeza a porta se abre, e minha irmã entra por ela trazendo um bebê em seu colo entra meu querido tio, que me introduziu a pintura minha madrinha, fiel companheira nos momentos ruins meu primo com a camisa do Fluminense meu melhor amigo entra pela porta eu vejo que há algo errado Marcelo nunca tinha ido naquela casa, eu não o conhecia quando frequentava aquela casa ele não pode estar ali com a minha família estou sonhando estou sonhando posso querer o que quiser nesse sonho, eu posso escolher ser o que quiser, posso criar meu mundo, ter qualquer coisa o que homens querem? abro a porta do quarto, na mesinha do corredor está um anel de ouro entro de volta para o quarto e dou o anel para meu cunhado que está com a minha irmã ele o coloca no dedo dela e os dois sorriem sinto que estou perdendo o sonho, que posso não conseguir controlar mais grito, alto, subo na mesa e ganho novamente o controle agora sim o que posso querer? lembro de meus avós no telhado e quero os encontrar desesperadamente começo a movimentar meus braços para cima e para baixo, mais forte, mais rápido, não consigo nem mais ver meu braços quando começo a subir, pairo no ar batendo os braços e saio pela janela saio voando o mesmo céu azul de minhas férias, o ganho e sinto o calor do sol lembro mais uma vez de meus avós, me viro e lá embaixo, bem pequenos em cima do telhado, estão os dois abraçados e sorriem.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

O barco não está vindo para o cais







Em qualquer mar existe um horizonte pelo qual o barco passa e não conseguimos mais o ver.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Do que resta

eu
não
creio
que minha
serenidade 
seja falta
de
p
a
i
x
ã
o
.



o fogo em cima dos fósforos dura muito pouco e apaga.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Meus ratos



Tenho ratos que dormem em meu quarto.
Eles querem subir em minha cama.
Tenho ratos soltos criança e cinzas medo.
Eles querem morder e arrancar minha boca.
Se consigo correr e fugir de casa,
os ratos me seguem para fora de casa.
Os ratos atravessam ruas comigo e tropeçam em meus pés.
Tenho ratos feios pavor e sujos sangue. 
“Os ratos não sabem morrer na calçada.”
Tenho ratos e tenho meus amigos.
Eu não, mas esses são capazes de, aos berros, espantar aqueles.

domingo, 27 de maio de 2012

Pra um

Não é fácil transformar um sonho pra dois em um sonho pra um.
Transborda pela falta de espaço
e um sonho sem espaço, não é.
Sonho sem espaço é aperto, frustra.
Lustro e enxugo o sonho
pra ver se enxuto, assim, pra um, cabe.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Eu não me esqueceria de Maria Flor

Sua tristeza não me cria unhas nem dentes.
Seu desespero disfarçado de serenidade não me faz decidir por aqui.
Há espaço para mim, mas fora dessa porta.

A claridade de nossa casa nada tem a ver com o vaso de flor, não apele.
Flor crescerá se o vaso se quebrar.
A terra embaixo dela se espalhará até o sol da janela.

De qualquer maneira, em nossas casas, haverá claridade, Maria, flor e terra.